A Beleza da Vida Consagrada
Ao olharmos para a vida de Jesus, certamente, somos tocados por tamanha beleza. Desde Belém, até a Ascenção, passando pelo Mistério de Sua Paixão, Morte e Ressureição, que nos comunica, de modo novo, o dom do Espírito Santo, em Pentecostes, onde a Igreja acontece, em nenhum momento, conseguimos ver, em Jesus, outra coisa, senão a beleza.
Ao seu modo, a Vida Consagrada quer ser, para o mundo, um reflexo desta beleza, que irradia do Coração de Cristo. Contudo, não podemos deixar de recordar aquilo que nos foi dito pelo profeta Isaías:
“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto…”
A Vida Consagrada, nas mais variadas formas suscitadas pelo Espírito Santo, mostra-se, no decorrer da história da Igreja, como um dos meios privilegiados da comunicação da beleza do Deus-Amor e, portanto, em si mesmo e para nós, também relação, comunhão, entrega, doação. Estes atos, próprios da essência da Trindade, ao serem experimentados por nós, criaturas, resgata-nos da feíura da morte e do pecado, abrindo-nos para a verdadeira beleza. Ao assumir aquilo que de mais feio existe – o pecado -, Jesus nos dá aquilo que de mais belo há, ou seja, a possibilidade do retorno à comunhão plena com o Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Que beleza de Amor! Amor, este, revelado mais plenamente na Cruz (Vita Consecrata, n. 24). A pessoa Consagrada, por sua vez, quer ser uma presença do amor do Deus crucificado. Contudo, antes de ser expressão do amor do crucificado, precisa encontrar-se com o transfigurado.
A condição para a permanente fecundidade da Vida Consagrada é, justamente, a transfiguração do Senhor. Este acontecimento será um divisor de águas na vida e no ministério de Jesus e, consequentemente, também na dos discípulos, consolidando a fé dos mesmos. A luz da transfiguração emana para todos os filhos de Deus; contudo, o Senhor chama alguns discípulos, para que experimentem, em suas próprias vidas, a força desse mistério, de maneira específica. E estas pessoas, além de acolherem o Reino de Jesus, com todo o coração, alma, força e entendimento, colocam suas próprias vidas em função da visibilização sempre maior deste reinado, que já se inicia aqui e agora, mas caminha rumo à plenitude, na consumação dos tempos.
Assim, a Vida Consagrada e, com isto, cada consagrado e consagrada, que, já consagrados pelo batismo sacramental, aderem, de modo novo e todo próprio, ao seguimento de Jesus, inserem-se num caminho particular e comunitário, no qual, pela força da luz do transfigurado, são moldados, a tal ponto em que suas próprias vidas, igualmente, se transfiguram. E isso é, sem dúvida alguma, parte fundamental do seguimento de Jesus: Todo aquele que professa os conselhos evangélicos, que são condições de existência da Vida Consagrada, terá a sua vida orientada para uma contínua conversão, até o momento em que esta vida será conforme a vida de Jesus, isto é, uma vida ‘cristiforme”.
Uma lâmpada não precisa dizer que ilumina, basta iluminar. Com efeito, a Vida Consagrada é um sinal profético para toda a Igreja. Ela é um reflexo das palavras de São Pedro: “É bom estarmos aqui” (Mt 17,4). A escolha de permanecer com o Senhor, feita por cada consagrado, irá mostrar à toda a Igreja e ao mundo que Deus, somente, é o absoluto; que a vida encontra seu sentido, justamente, na radical permanência com o Senhor. “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Quando a Vida Consagrada – e cada consagrado, particularmente – consegue assumir, para si, estas palavras de Paulo, é sinal de que, realmente, esta vida nasceu da transfiguração e suportará o mistério da cruz, quando esta advir.
A Vida Consagrada é, pois, a beleza de Jesus Cristo no hoje da vida. Mas é uma beleza que, primeiramente, nasce da transfiguração, assumindo, posteriormente, o radical seguimento de Jesus, e tem seu vértice no mistério Pascal, que é o cume do belo amor de Deus para com cada pessoa humana e toda criação, afinal. Com efeito, a Vida Consagrada é a alegria do amor divino para com o homem e a mulher e, por isso mesmo, é uma vida marcada pela cruz, que leva à ressurreição, fonte de alegria indizível.
Pe. Leonardo Willian Mariano, MIC
Vigário da Paróquia São Sebastião
Ilha do Governador – Rio de Janeiro